Automotive Business
Siga-nos em:

Inovação

Ver mais notícias
“No futuro vamos pensar que éramos loucos por permitir que humanos dirigissem”

Tecnologia | 05/02/2018 | 0h0

“No futuro vamos pensar que éramos loucos por permitir que humanos dirigissem”

Peter Kronstrøm, diretor do Copenhagen Institute for Futures Studies para a América Latina, fala sobre o horizonte de transformação para a indústria automotiva

GIOVANNA RIATO, AB

O cenário para a indústria automotiva pode não ser dos mais animadores para os fãs de dirgir: a chegada do carro autônomo deve, aos poucos, afastar as pessoas do volante. “Em 20 ou 30 anos, os governos serão irresponsáveis se não restringirem a circulação de automóveis não automatizados. No futuro vamos pensar que éramos completamente loucos por permitir que humanos dirigissem”, diz Peter Kronstrøm diretor do Copenhagen Institute for Futures Studies para a América Latina.

Dinamarquês, ele vive no Brasil há sete anos com a missão de desvendar o futuro dos negócios, da economia e da sociedade na região. É futurologia, mas sem turbante e bola de cristal. Para ele, o País tem um ambiente efervescente de inovação e, portanto, ferramentas importantes para acompanhar a evolução da indústria automotiva global. O Instituto de Copenhagen foi criado em 1970 por Thorkil Kristensen, ex-ministro das Finanças do país, com a missão de mapear tendências e preparar empresas e sociedade para transformações futuras.

Com este olhar, o instituto foi capaz de prever, ainda nos anos 1980, que a China passaria a ser uma das principais potências econômicas mundiais, algo absolutamente óbvio hoje, mas que na época deixava margem a uma série de dúvidas por ser um país comunista isolado do mundo. O fim da história já é conhecido: a mudança aconteceu e causou impacto em muitos países e negócios.

A organização está prestes a finalizar amplo estudo relacionado ao futuro da indústria automotiva que, para Kronstrøm, é o próximo setor a passar por disrupção do modelo atual. “O transporte é a nova fronteira de inovação. Por isso vemos empresas de tecnologia, como Google e Apple de olho no setor da mobilidade. O carro será o novo iPhone.”

Na entrevista a seguir ele adianta algumas informações do estudo e fala do futuro das empresas automotivas. Ele mostra que, se por um lado o setor vai lamentar o desaparecimento dos motoristas, há muitos ganhos para celebrar na outra ponta: como o aumento da segurança e o surgimento de um modelo mais eficiente de sociedade.

Os próximos anos serão de grande transformação na indústria automotiva. O que o Copenhagen Institute for Futures Studies projeta?


Muitas análises apontam que, em 2035, 50% dos carros em circulação no mundo serão autônomos. A sociedade em que vivemos aconteceu em torno do automóvel: casas com garagem, estacionamentos em shoppings e mercados. É uma infraestrutura quase totalmente determinada pelo carro. Acontece que a chegada dos modelos autônomos vai ter impacto enorme em tudo que já está estabelecido. Será uma revolução guiada pela criação de um novo ecossistema de transporte.

E o que vocês esperam deste ecossistema?


É justamente isso que está em questão. Ainda não sabemos como este ecossistema vai se desenhar e qual será a sua configuração. Provavelmente teremos uma mistura grande, com carros autônomos compartilhados como forma importante de circular nas cidades. O automóvel manual tende a se tornar item de luxo, algo que só aficionados por veículos terão para rodar no fim de semana. Hoje o carro diz muito da personalidade das pessoas. Com a automação, em que você não precisa mais nem pisar no acelerador, essa necessidade de ser um bem individual vai se perder. Os carros autônomos devem se diferenciar de outra maneira. Teremos veículos diferentes para necessidades diferentes, como um modelo escritório para trabalhar e um carro-hotel para uma viagem longa.

E qual será o impacto disso na sociedade?


Uma mudança desta proporção vai impactar o nosso dia a dia e a forma como trabalhamos. Hoje você interrompe as suas atividades para se deslocar de um ponto a outro. Com carros autônomos, será possível trabalhar nesse intervalo. Já estamos descobrindo que talvez não precisemos de um escritório. Isso vai se intensificar.

“Vai acontecer com o setor de transporte o mesmo que aconteceu com a internet: as soluções estarão disponíveis o tempo todo a um preço muito atrativo.”

 

Hoje vemos assistentes inteligentes como a Alexa, da Amazon, nos ajudar a gerenciar a nossa agenda. No futuro isso acontecerá de forma bem mais fluida. Terei um assistente digital que, enquanto eu me preparo para uma reunião, vai chamar um carro autônomo para que eu faça o meu deslocamento no horário certo.

Como conseguiremos trabalhar enquanto nos transportamos, teremos novas estruturas de cidade, mais amplas. Vai ser possível morar em Riviera de São Lourenço e ter reuniões e atividades em São Paulo. O carro autônomo eleva completamente a eficiência do sistema.

 

Nesse cenário de conectividade tão fluida na vida das pessoas, qual será o papel do carro?

 

“O transporte é a nova fronteira de inovação. Por isso vemos empresas de tecnologia, como Google e Apple de olho no setor da mobilidade. O carro será o novo iPhone.”

 

Pesquisas mostram que 85% do uso do smartphone pode ser feito por comandos de voz. No futuro não vamos ser mais presos a olhar para uma tela. Você pode ter esse assistente virtual falando diretamente no seu ouvido. Um dos ambientes em que essa interação vai acontecer, onde marcas terão contato direto com o consumidor, será dentro do carro, enquanto nos transportamos. O uso do automóvel vai ser muito mais constante, algo que usamos o tempo todo como escritório, lugar de lazer, academia e muitas outras funções. Hoje em dia o carro fica parado 94% do tempo, em média. Mesmo com esse aumento do volume de deslocamentos, em um sistema de compartilhamento, vamos tirar veículos da rua.

É uma transformação muito grande. Em que ritmo ela vai acontecer?


Vai depender de como acontecerá a evolução da infraestrutura, de qual padrão vamos adotar. Teremos também horizontes diferentes para a mobilidade urbana e a rural. Podemos esperar que grandes cidades proíbam a condução manual. O carro autônomo vai reduzir drasticamente o número de acidentes. Em 20 ou 30 anos, os governos serão irresponsáveis se não restringirem a circulação de automóveis não automatizados. No futuro vamos pensar que éramos completamente loucos por permitir que humanos dirigissem.

Qual será o impacto para as empresas da indústria automotiva?


O setor passa por um movimento comum a uma série de setores que é a transformação do modelo de negócio centrado em produto para um novo, focado em serviços. Há alguns anos o o valor estava na transação: as pessoas compravam um carro, pagavam por isso e recebiam este produto. Agora o valor não está mais na transação, mas na relação entre empresa e consumidor. O transporte vira um serviço e você pode comprar o seu próprio ou assinar para usá-lo, fazer um leasing operacional. A entrega é diferente e a relação com as marcas precisa ser outra.

Eu, por exemplo, adoro ter meu próprio carro, mas quando penso sobre isso vejo que não faz muito sentido. Para ter um automóvel preciso ir ao banco pedir financiamento, além de negociar o preço do carro e do seguro. Se tenho um problema, como não entendo nada, estou nas mãos de um mecânico que pode me explorar. Com o carro como serviço todas estas questões somem.

 

Kronstrøm acredita que o Brasil segue na mesma direção do resto do mundo: rumo ao carro autônomo

Muitas empresas, não só as montadoras, estão de olho nestas novas oportunidades, como locadoras e seguradoras.


Sim. A dinâmica será diferente. Se a BMW, a Mercedes-Benz ou a General Motors investirem na oferta de carros compartilhados para 10 milhões de brasileiros, elas terão outro poder de negociação para oferecer seguro e manutenção com custo mais baixo. Talvez, neste caso, as próprias montadoras pensem em ter um braço de negócio focado nestes serviços.

“É essencial lembrar que os consumidores querem sempre a melhor entrega ao menor custo. Por isso o compartilhamento é um modelo bem mais atraente do que ter um carro no formato tradicional.”

 

As empresas automotivas conseguirão manter o domínio da experiência do cliente? Ou vão passar a entregar o carro como uma commodity e o valor ficará nas mãos de companhias de tecnologia, por exemplo?


O cenário é incerto, mas acredito que as empresas automotivas ainda vão entregar experiência. Os carros permanecerão relevantes, com serviços de transporte especiais para cada situação. Será interessante ver como esta mudança vai acontecer. Teremos diversidade bem maior de carros no futuro e aumento do volume de quilômetros rodados. É certo que teremos serviços mais simples e baratos e outros focados no segmento premium. Há uma série de novas possibilidades e as empresas automotivas trabalham para garantir espaço em tudo isso.

Globalmente teremos um avanço grande do carro autônomo a partir de 2020. Qual é a posição do Brasil nesse movimento? As empresas estão prontas para essa transformação?


Tudo depende muito da evolução da legislação da disponibilidade do governo para planejar essa mudança. Sinto que há disposição e abertura para a inovação no Brasil, algo que será essencial nesse processo.

“Globalmente o avanço da automação está muito relacionado ao carro elétrico, algo que ainda não vemos de forma consistente por aqui. Por isso, entendo que no Brasil o processo vai ser um pouco diferente, mas com certeza vai seguir na mesma direção do resto do mundo. Por aqui há muitas possibilidades de geração de energia: hidrelétrica, solar, eólica. Por outro lado, o País conta com biocombustível em sua matriz, o etanol.”

 

A Noruega, que é um país de vanguarda, teve 14 veículos elétricos no ranking dos 15 modelos mais vendidos em 2017. Apenas um era a gasolina. É nessa direção que o mundo está seguindo. Vai ser interessante ver qual modelo o Brasil vai perseguir. As grandes cidades do País deveriam entrar no jogo para romper paradigmas de mobilidade, descobrir novas formas de deslocamento.

Quando você fala que tudo depende de legislação, está se referindo à segurança?


Falo de segurança, de cibersegurança, de parcerias público-privadas envolvendo a indústria automotiva para criar áreas de teste das novas tecnologias.

“A verdade é que ninguém sabe qual será a configuração do transporte no futuro. Quem definir primeiro o melhor ecossistema para o carro autônomo vai dominar o mercado. Não sabemos se será uma montadora ou uma empresa de tecnologia.”

 

Em São Paulo todo mundo usa o Waze não porque é algo completamente superior ao resto, mas porque chegou primeiro e resolveu um problema importante. É algo simples que dá certo. Quem desenvolver isso primeiro para o setor de transportes conseguirá estabelecer os parâmetros que todo mundo vai se esforçar para seguir.

Quais tecnologias ganham espaço na nova etapa da indústria de transportes?


A tendência é que muitos desafios dessa nova estrutura sejam solucionados com base em uma infraestrutura digital que envolva também o uso de blockchain (solução que permite armazenar dados em tempo real e em ordem cronológica de forma permanente, reduzindo o risco de fraude). Estudos indicam a evolução de uma Smart Society com tudo conectado e planejado.

Hoje, se estou me deslocando e preciso tirar uma dúvida ou encontrar um ponto de referência, é o Google que me ajuda no meu smartphone. No futuro o carro terá esse papel de me dar informações valiosas. Pode ser que o automóvel meça, por exemplo, a minha temperatura. Se estiver elevada, ele me recomenda passar em um pronto socorro ou parar em uma farmácia para comprar medicamentos. São muitas possibilidades. A questão é quem vai desenvolver a solução, infraestrutura e ecossistema que faça mais sentido. Isso ninguém sabe agora.

O setor automotivo tem a estrutura de cadeia produtiva muito bem estabelecida. A transformação que temos adiante vai mudar isso?


A indústria 4.0, baseada em algoritmos, robôs e machine learning, vai romper com a lógica atual de que a China produz bens manufaturados e envia para todo o mundo. Nos próximos 15 anos a produção, em geral, vai ficar mais localizada. Se você não depende mais tanto da mão de obra humana, não muda muito a competitividade de fazer um produto na China ou aqui, o custo se aproxima. Cada montadora vai precisar rever a maneira como gerencia a sua cadeia de valor. O ecossistema está mudando por completo: com o carro elétrico, o impacto será grande para os fornecedores porque há muito menos peças e necessidade de manutenção. As atualizações serão feitas na nuvem, como acontece hoje com a Tesla.

A vantagem é que as grandes transformações demoram para se consolidar e o mundo não acaba de um dia para o outro. Existe um período de adaptação. Se um carro tem vida útil de 20 anos, em média, essa é a janela de adaptação que teremos para o setor, cerca de 20 anos. Nesse intervalo, será preciso trabalhar muito para entender o novo cenário. A boa notícia é que esperamos muito mais transporte no futuro: de bens, de pessoas, de tudo. Os deslocamentos vão aumentar, o que mantém esta indústria como algo essencial.

 

Veja também

AB Inteligência