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Antônio Jorge Martins

A situação atual e as perspectivas para o setor automotivo

Depois da pior crise da história, indústria volta a crescer no Brasil

Por Antônio Jorge Martins

Após atravessar a maior crise já vivenciada no Brasil, o setor automotivo sente os primeiros sinais de recuperação, apesar de lenta e gradual quando comparada ao ritmo que o setor se encontrava até 2014.

Deve-se destacar que, diferentemente de muitos países que apresentam queda acentuada em seus mercados em função da dificuldade ou mesmo impossibilidade do surgimento de novos clientes, a crise brasileira decorreu das incertezas de sua economia nos últimos anos, ocasionando redução brutal de investimentos pelo setor privado, bem como pela diminuição do poder de consumo da sociedade brasileira, seja pela queda do PIB, seja pelo maior nível de endividamento das famílias.

O impacto ocasionado pelo menor volume de investimentos das empresas gerou um nível de ociosidade nas fábricas de caminhões da ordem de 80%, enquanto que o segmento de veículos foi surpreendido com a ocupação industrial reduzida para cerca de 60%. Cumpre ressaltar que mesmo com baixa utilização fabril, nenhuma indústria deste setor encerrou as atividades no País, sendo que algumas, inclusive, reforçaram sua presença neste mercado. Pode-se sinalizar que os problemas levantados acarretaram demanda reprimida do setor que tende a se desfazer nos anos seguintes, uma vez que os investimentos e o poder de consumo serão retomados no futuro.

As dificuldades do segmento de caminhões e veículos em nosso País provocaram retomada das exportações do setor automotivo, estratégia esta usualmente utilizada pelas empresas para minimizar os efeitos decorrentes dos altos e baixos de uma economia em desenvolvimento como a do Brasil. Deve-se salientar que no passado, as exportações foram abandonadas pelas empresas aqui instaladas com o objetivo de focar o atendimento no mercado brasileiro.

O rápido retorno às exportações das indústrias brasileiras foi motivado capacidade ociosa das nossas fábricas, cujas concepções originais obedeceram a um formato de utilização como plataformas de produção global de veículos e caminhões e não apenas para uso local. Estudos internacionais comprovam que o Brasil se situa como o principal País para servir de base fabril para toda a América Latina, ao se considerar seu mercado extremamente promissor, atestado pelo indicador de 4,7 habitantes por veículo no Brasil, contra 3,2 na Argentina, 1,7 na Alemanha e 1,2 nos Estados Unidos.

A presença de 24 OEM’s em nosso País respalda-se também pelo fato de termos absorvido conhecimento e capacidade de desenvolver produtos globais com a experiência acumulada de mais de 60 anos do setor automobilístico no Brasil.

Todos os fatores acima levantados justificam a iminente posição do governo brasileiro em restringir a concessão de incentivos fiscais ao setor automobilístico através de programas que sucedam ao Inovar-Auto, tendo em vista a grave situação fiscal existente em nosso País, que tende a se estender ao longo dos próximos exercícios.

Não se pode negar que a potencialidade do mercado brasileiro já representa o principal incentivo para as empresas aqui instaladas, que para fazerem frente à elevada competitividade existente, terão necessariamente que realizar investimentos para se manterem neste poderoso mercado. Algumas consultorias internacionais projetam uma futura redução no número de empresas mundiais atuantes neste setor.

A crise fiscal reinante exige prioridades do nosso governo sobre aquilo que é ou não indispensável como merecedor de incentivos, cabendo ressaltar que o setor automobilístico pode ser considerado como um dos maiores beneficiários fiscais ao longo de toda a sua existência no País.

Torna-se premente a realização no Brasil de elevados investimentos em infraestrutura, cujo sucesso depende de sobremaneira de recursos financeiros a serem aplicados por Fundos e Fundações internacionais, que somente atuam em países que possuem “Investment Grade” concedido por 2 (duas) Agências Internacionais de Classificação de Risco.

Esses investimentos se revestem de uma importância muito grande de tal forma a se reduzir o custo Brasil, bem como para permitir que a sociedade brasileira possa usufruir com maior rapidez dos benefícios a serem gerados pela breve evolução tecnológica para veículos autônomos, que requerem uma infraestrutura bem diferente daquela existente no estágio atual do Brasil.

Aliás, o foco tecnológico requerido pelo setor automotivo decorre da conectividade cada dia mais presente em nossas vidas e, em particular, nos novos veículos que caminham para se tornar um celular sobre rodas, exigindo uma nova cultura das indústrias automobilísticas brasileiras e mundiais, em função da prestação de serviços que deverá reinar no complexo automotivo, em detrimento da receita somente proveniente de produtos.

Antônio Jorge Martins é coordenador de cursos automotivos da FGV, mestre em sistemas de gestão voltados para a sustentabilidade empresarial, com especialização em engenharia econômica, finanças, administração financeira e política.

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